quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Até já

Naquele instante em que o lusco-fusco se começou a mostrar, o teu destino selou-se.
Ninguém descobriu o que se passou, acho que ficamos por aqui, disse.
E estas palavras, estas simples palavras, naquele instante, mudaram a tua vida. Não quero que penses que desisti de ti, mas sinto-me impotente, inválida, inútil, incapaz de te ajudar.
A primeira vez que percebi que algo te tinha acontecido foi a última vez que te despediste de mim. Ao meu adeus respondeste “nunca digas adeus, um até já soa muito melhor”. Foram as últimas palavras que pronunciaste, ali, naquele instante, iniciaste a tua viagem. Agora nada mais és do que um corpo despido de alma.

O que te fizeram? Quem te feriu? Ou será que o partir foi apenas escolha tua? Este mundo não era suficiente para ti, tiveste de ir conhecer outros mundos?
Ninguém descobriu o que se passou…
Ninguém descobriu o que se passou…
Ninguém descobriu o que se passou…
Estas palavras ecoam na minha cabeça, perseguem-me.

Estarás ausente para sempre, durante anos, meses, dias, horas, ou, daqui a uns minutos, quando eu sair deste lugar, voltarás a ti?

Estou infinitamente triste, preciso de ti, do tempo que passamos a construir mundos apoiados somente em palavras.
Se estivesses aqui dir-me-ias que não existe presente ou futuro, apenas passado. E nós teremos sempre o nosso.

Neste instante, já noite, em que saio do hospício, eu sei, restam-nos as palavras, sempre as palavras.
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5 comentários:

Ianita disse...

Mas palavras, leva-as o vento... :)

Brincadeirinha.

Gostei muito. Aqui está uma prova de que só custa começar... quando começas, ninguém te pára. :)

Muito bom Veronique. Têm de continuar a lançar desafios destes para ver se tu perdes a preguiça e nos brindas com palavras, estas, outras, todas, algumas, mas tuas. Continua. Adorei :)

Kisses

Teresa disse...

Miga, miga, miga, adorei!! A tua história tem um sabor a mistério, a nostalgia, a insanidade. Por momentos pareceu-me estar a ler Gabriel Garcia Marquez, mas vendo bem, tu escreves bem melhor... Devias pensar em escrever um livro, com ideias assim, inspiradas e inspiradoras. Há tanto cromo em Portugal a escrever sem talento, uma ilustre desconhecida como tu tb devia ter essa oportunidade...

Verónica disse...

O Gabriel Garcia Marquez em "Doze Contos Peregrinos" tem 2 contos excelentes, dos quais nunca me esqueci. Um deles é "Só vim fazer um telefonema" e passa-se a caminho de um hospício, é muito kafkiano. E "O rasto do teu sangue na neve".

Agradeço os elogios, porque sei que são sinceros, se não gostassem tinham o à vontade para mo dizer logo na cara. lol

Agora uma coisa é escrever estas pequenas coisas e outra é escrever um livro! E eu sou tão preguiçosa... lol

Teresa disse...

Pois, eu lembrei-me logo desses 2 contos, são os meus favoritos desse livro, tão trágicos, tão inesperados. Qt à frontalidade, já sabes como eu sou, se fosse preciso dizia-te "com toda a frontalidade", que o Castanheira ia com o castor debaixo do braço, e com alguma sorte ainda te perguntava onde tavas no 25 de Abril, minha fascisóide!!! looll

GG disse...

(...)

Temos escritora.

A sério, é muito bom. É curto mas como dizer... deixa uma sensação de desolação. O que é o melhor sinal para avaliar se é bom ou não porque não nos deixa indiferentes.